Vinho no liquidificador? A polêmica prática da hiperdecantação

Heresia ou não, a hiperdecantação é uma prática que vem se destacando cada vez mais ao longo do tempo. Saiba no que ela consiste e o porquê de ser considerada um grande erro.

Você presentou um amigo com um grande vinho, um clássico Pommard Premier Cru Les Charmots, por exemplo, e ele te convidou para degustá-lo em um jantar. Naturalmente, a animação é alta e simplesmente não dá para perder uma oportunidade como essa. Chegando lá, seu amigo, vamos chamá-lo de Jorge, agradece novamente pelo presente e diz que aprendeu uma “técnica incrível” na internet, algo que ele chama de “hiperdecantação”. Curioso, você pergunta mais sobre ela e, todo orgulhoso, Jorge diz que consiste em bater o vinho no liquidificador para acelerar o processo de decantação e envelhecer a bebida instantaneamente. Diante disso, só te restam duas opções: impedir ou deixar que um grande clássico acabe dentro de um liquidificador. O que você faria?

Viemos, aqui, apontar o que deveria ser feito em uma situação como essa. Uma alternativa plausível, mas que não defenderemos por motivos de legalidade, é imobilizar seu amigo antes que um grande erro seja cometido. Já que não é recomendável, a melhor opção é orientá-lo.

Como a hiperdecantação se popularizou?

Acredita-se que foi Nathan Myhrvold, em seu livro “Modernist Cuisine”, o primeiro a falar no tema. Porém, foi só em 2019 que a hiperdecantação realmente se tornou um fenômeno. Tudo isso por conta de outro fenômeno, este da televisão, a série da HBO “Succession”. No terceiro episódio da segunda temporada, o excêntrico personagem Connor Roy aparece com um vinho da Borgonha no liquidificador dizendo que “você pode envelhecer um vinho cinco anos em 10 segundos” através do método, o que chocou sua irmã e, é claro, a comunidade enóloga.

hiperdecantação
Foto: Divulgação/HBO

No que consiste a hiperdecantação? Por que é um erro?

Antes de mais nada, temos o que entender o que significa a decantação em si. Resumidamente, ela consiste no processo de separação do líquido dos sedimentos, geralmente em vinhos não filtrados e de longa guarda. Mais que isso, também serve para aerar, abrir a bebida, processo que introduz oxigênio ao vinho e assim faz com que seus aromas se dissipem com mais facilidade. Nessa linha de raciocínio, hiperdecantar é levar essa ideia ao extremo, buscando uma forma de acelerar a aeração e trazer complexidade artificialmente.

Jay McInerney, conhecido crítico, ao falar sobre o tema, apontou, acertadamente: “Há, também, pessoas que acreditam que bater em uma criança, ou um cachorro, vai melhorar seu comportamento, mas eu definitivamente não estou entre eles. A hiperdecantação certamente não é maneira de tratar um bom (vinho da) Borgonha. Grandes vinhos desenvolvem complexidade ao longo do tempo. Guarde o liquidificador para smoothies”.

Em poucas palavras, bater a bebida no liquidificador é, basicamente, ignorar todo o cuidado empregado no processo de vinificação, tentando transformar um vinho em algo que ele não é em essência.

Categoricamente, hiperdecantar não agrega positivamente, pelo contrário. É claro, porém, que fica a seu critério experimentar e decidir se funciona ou não para você. Mas, por favor, não seja um Connor Roy.

Agora, se você quiser experimentar ótimos vinhos e que não precisam passar pela hiperdecantação, confira nossas dicas:

MasterChef Crianza DOCa Rioja

Vinho espanhol elaborado com as uvas Tempranillo e Graciano. Amadurece por 14 meses em barricas de carvalho francês. Apresenta aromas intensos de frutas vermelhas maduras com notas de especiarias e cacau e, em boca, é agradável, complexo e equilibrado, com sabores de frutas e especiarias, mostrando-se longo e persistente.

MasterChef Crianza DOCa Rioja
MasterChef Crianza DOCa Rioja

Gran Alambrado Malbec

Este argentino elaborado em Mendoza, apresenta aromas de frutas vermelhas com notas de violetas, típicas da variedade. Amadurece por 10 meses em barricas de carvalho. Equilibrado e complexo, percebem-se taninos macios que dão estrutura e personalidade ao vinho. A acidez confere vivacidade.

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Gran Alambrado Malbec

Due Lune Nerello Mascalese Nero D’Avola IGT

Vinho italiano da Sicília produzido com as uvas Nerello Mascalese e Nero D’Avola. Apresenta aromas de frutas vermelhas, frutas escuras, especiarias (pimenta) e couro. No paladar, é seco, encorpado, apresenta boa acidez, taninos muito bem estruturados e final longo.

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Due Lune Nerello Mascalese Nero D’Avola IGT

Corbelli Chianti DOCG

Produzido na Toscana, este italiano apresenta aromas que lembram violetas. Em boca, é seco, com notas de cerejas e frutos vermelhos escuros e bastante gastronômico.

Corbelli Chianti DOCG
Corbelli Chianti DOCG

Marquês de Borba Vinhas Velhas Tinto

Alentejano, este vinho apresenta aromas intensos de frutas escuras, folha de eucalipto e notas de especiarias. Em boca, é muito equilibrado e com taninos arredondados. Fermenta em lagares de mármore com pisa a pé e estagia 12 meses em barricas de carvalho americano e francês.

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Marquês de Borba Vinhas Velhas Tinto

Putos Tinto Alentejo DOC

Vinho português criado por Danilo Gentili, Oscar Filho e Diogo Portugal e produzido no Alentejo. Apresenta aromas de frutas vermelhas maduras, como amoras e groselhas, e notas de baunilha. Em boca, é equilibrado e tem taninos macios.

Putos Tinto Alentejo DOC
Putos Tinto Alentejo DOC

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